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O cinema que eu vendo não é o cinema que eucomprei

Há pouco mais de doze anos, entro em salas de cinema pelo Brasil como um “fornecedor”, eisso me deu uma visão privilegiada do negócio “cinema”. Não tenho a menor pretensão de meconsiderar um grande conhecedor ou expert neste mercado – esta posição é ocupada comexibidores com décadas de cinema e profissionais muito mais gabaritados do […]

Escrito por: marketing

Há pouco mais de doze anos, entro em salas de cinema pelo Brasil como um “fornecedor”, e
isso me deu uma visão privilegiada do negócio “cinema”. Não tenho a menor pretensão de me
considerar um grande conhecedor ou expert neste mercado – esta posição é ocupada com
exibidores com décadas de cinema e profissionais muito mais gabaritados do que eu – mas me
sinto capaz de analisar novos cenários — pós-Covid?? — e entender como o cinema pode se
transformar e se atualizar do ponto de vista tecnológico, a fim de entregar uma experiência
melhor para clientes cada vez mais ávidos por inovação.
Nesses doze anos representando a Christie no Brasil, participei de inúmeros projetos: de
multiplex de shopping na capital ao cinema de rua que resiste no interior. Aliás, já voei e dirigi
por horas, às vezes, para visitar um cliente com apenas uma sala… E, se eu tivesse que resumir
o que aprendi em uma frase, seria esta: o público nunca soube explicar por que deixou de ir ao
cinema, mas eu tenho uma boa idéia de quando isso começou.
Começou quando as salas envelheceram por dentro.
Degradação silenciosa
A digitalização do parque exibidor brasileiro, concluída por volta de 2014, foi vendida como um
ponto de chegada. Na prática, foi um ponto de partida — e muita gente estacionou nele.
Projetores com lâmpada xenon foram instalados com brilho exuberante e, filme após filme,
foram perdendo desempenho. Lâmpada é um consumível: perde luminosidade, custa caro, e a
tentação de estender sua vida útil além do recomendado é enorme quando a bilheteria aperta.
O resultado eu vi com meus próprios olhos incontáveis vezes: salas projetando com metade do
brilho especificado pelo DCI, sessões 3D tão escuras que os óculos pareciam de soldador —
motivo pelo qual, inclusive, convenci um exibidor a instalar nosso primeiro projetor laser no
Brasil — cores lavadas e contraste praticamente inexistente.
O espectador não sabe medir foot-lamberts. Mas ele sabe que “o cinema não é mais aquilo”.
Ele não reclama tecnicamente — simplesmente não volta. E, enquanto não volta, existe a
chance dele comprar uma TV de 85 polegadas com um painel LED que, ironicamente, entrega
mais brilho e mais contraste do que muitas salas comerciais por aí.
Nós, exibidores e fornecedores, passamos anos discutindo janelas de lançamento e streaming
como se fossem os únicos vilões, enquanto um dos vilões mais constrangedores estava dentro
da nossa própria cabine.

O que a pandemia escancarou
Em 2020, as salas fecharam e, quando reabriram, descobrimos algo desconfortável: o público
não voltou por hábito; voltou por evento. Voltou para Avatar, para Barbie, Oppenheimer,
Homem-Aranha e tantos outros filmes que se transformaram em assunto ou tendência.
O cinema deixou de ser o programa padrão de fim de semana e virou uma escolha muito mais
consciente — e uma escolha consciente exige que a experiência a justifique.
Pense comigo: se uma pessoa sai de casa, paga estacionamento, pipoca e ingresso, ela também
está fazendo um investimento emocional. Entregar a ela uma imagem escura, uma poltrona
desgastada e barulhenta e um som cansado ou distorcido não é economia operacional: é
quebra de confiança. E confiança quebrada, para as novas gerações, muitas vezes não gera
reclamação — gera silêncio e um assento vazio para sempre.
Ainda me lembro de uma máxima que ouvi quando trabalhava em uma companhia aérea, 25
anos atrás: “poltrona não voada não volta nunca mais”. Acredito fielmente que essa mesma
lógica se aplique ao cinema.
Laser não é um upgrade, mas um reposicionamento
É aqui que entra a parte que ainda hoje me consome. A transição do xenon para o laser RGB é,
na minha leitura, a maior oportunidade de reposicionamento que o exibidor brasileiro tem em
mãos desde a digitalização.
Não porque o laser seja moderno — modernidade, sozinha, não vende ingresso
automaticamente —, mas por três razões muito concretas.
Primeiro: consistência. O laser entrega brilho consistente desde a sessão de estreia até milhares
de horas de operação.
Segundo: economia real. Sem trocas periódicas de lâmpada e com consumo de energia
significativamente menor, o custo operacional cai de um jeito que qualquer diretor financeiro
entende na primeira planilha. Programas como o Cinema Rental, que desenvolvemos
pioneiramente em 2023, hoje permitem renovar o parque de projeção sem sufocar o caixa.
Terceiro — e, para mim, o mais importante —: o laser RGB devolve à sala algo que a TV de casa
não consegue reproduzir na mesma escala: volume de cor, brilho e impacto visual em uma tela
gigante, transformando a própria imagem em argumento de marketing.
Cor de verdade, preto de verdade, 3D que finalmente parece 3D.

Eu costumo brincar com nossos clientes e amigos que ninguém posta um story sobre a lâmpada
nova do projetor. Mas muita gente comenta ao sair de uma sala com projeção laser RGB:
“Nunca vi uma imagem assim”.
Pude comprovar isso quando instalamos um projetor 4K em um cinema de Curitiba para a
estreia de Vingadores: Guerra Infinita. A tecnologia se torna verdadeiramente disruptiva
quando provoca esse tipo de reação no consumidor.
As ferramentas estão todas disponíveis
O exibidor que quiser disputar a atenção das pessoas em 2027 e nos anos seguintes precisará
se atualizar — e o arsenal existe.
Imagem laser calibrada e mantida ao longo do tempo, porque instalar bem e abandonar depois
é jogar dinheiro fora. Manutenção e recalibração periódicas são tão estratégicas quanto a
própria compra. Encontre técnicos competentes e mantenha-os por perto.
Som imersivo que faça a sala vibrar de uma forma que um fone de ouvido não consegue
reproduzir. Formatos premium e salas-conceito que justifiquem um ticket médio maior.
E relacionamento. Sou um dos que acreditam que programas inteligentes de fidelidade e
assinatura podem transformar o espectador eventual em frequentador. Porque frequência se
constrói com recompensa, recorrência e constância — não apenas com calendário de
lançamentos.
Nada disso é teoria para mim. É o que discuto toda semana com exibidores de todos os portes e
é o que me faz continuar otimista depois de doze anos ouvindo que o cinema vai morrer.
O cinema não vai morrer. O cinema de má qualidade vai sofrer e, com o tempo, morrer.
O que me motiva
Eu poderia encerrar com uma frase de efeito sobre a magia da tela grande, mas prefiro
terminar com uma cena.
No ano passado, durante um comissionamento em uma cidade de interior, instalamos um
projetor laser novo em uma sala que operava há anos com a lâmpada no limite. Um
funcionário, um senhor que trabalha em cinema desde a época da película, ficou parado
olhando para a tela de teste e sussurrou:
“Eu tinha esquecido que era assim. Que coisa linda.” É por isso que faço o que faço.

O público brasileiro não abandonou o cinema — ele está esperando que o cinema volte a ser
aquilo de que se lembra. E, pela primeira vez em muito tempo, temos todas as ferramentas
para entregar isso. Falta apenas a decisão de usá-las.
Ricardo Laporta é diretor comercial e cofundador da Neolux Cinema e representante da Christie
Cinema no Brasil.

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