Dedico este texto a Pedro Curi, Talitha Ferraz, Claudia Belém, Marcela Soalheiro, Gabriel Marinho e Pedro Butcher, professores que, em diferentes momentos, fizeram da formação uma forma de construir mercado e ajudaram a tornar o cinema um caminho possível para quem ainda estava tentando entender onde poderia estar dentro dele.
Durante muito tempo, no Brasil, escolher cinema como profissão significava explicar a escolha antes mesmo de começar a carreira. Não porque o cinema fosse desconhecido. Pelo contrário. O país sempre teve uma relação intensa com seus filmes, seus atores, seus diretores, suas salas e seus festivais. O que faltava era uma percepção mais clara de que, por trás daquilo que chegava à tela, existia uma cadeia profissional tão complexa quanto a de qualquer outra indústria. Para uma criança, dizer que queria ser médico, advogado ou engenheiro vinha acompanhado de uma imagem reconhecível de profissão. Havia faculdade, especialização, concurso, escritório, hospital, empresa. Cinema aparecia em outro registro. Era associado à vocação artística, ao talento individual ou a uma oportunidade que talvez surgisse em algum momento. A indústria estava lá, mas seus caminhos permaneciam pouco visíveis. E quando uma profissão não é visível, ela dificilmente aparece como possibilidade concreta de futuro. Essa talvez seja uma das razões pelas quais tantas pessoas que trabalham hoje com cinema chegaram ao setor por percursos pouco lineares. Não necessariamente porque a indústria fosse pequena, mas porque era difícil enxergar sua estrutura antes de estar dentro dela.
Essa percepção começou a mudar de maneira significativa nas últimas décadas, e uma das transformações mais importantes aconteceu justamente na formação. O cinema passou a ocupar um espaço mais amplo dentro das instituições de ensino, com a criação e expansão de cursos de graduação, formação técnica e outras modalidades voltadas ao audiovisual. A própria história da formação universitária na área mostra que esse movimento não é recente. O curso de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP começou suas atividades no final dos anos 1960, em um contexto no qual a formação específica em cinema ainda era bastante restrita. A expansão ganhou novas dimensões nas décadas seguintes, especialmente com a ampliação do ensino superior público. O levantamento mais recente realizado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, em parceria com a Organização de Estados Ibero Americanos, identificou 47 cursos de formação em cinema e audiovisual dentro do escopo pesquisado, distribuídos por 34 instituições federais: 20 universidades e 14 institutos federais, com presença em 19 estados. O estudo considera cursos de graduação, bacharelado, licenciatura, tecnólogo e técnico, além de áreas como cinema, cinema e audiovisual, animação, jogos digitais, produção multimídia e produção de áudio e vídeo. O dado mais importante, para mim, não está apenas na quantidade. Está no fato de que o próprio Ministério da Cultura passou a mapear a formação a partir da relação entre ensino e cadeia produtiva, investigando para quais setores e atividades do audiovisual esses cursos estão preparando seus alunos. Isso mostra uma mudança de compreensão. Formar alguém para o audiovisual não significa apenas ensinar a realizar um filme. Significa também apresentar as estruturas que permitem que uma obra seja produzida, finalizada, distribuída, exibida, preservada e discutida. É nesse ponto que penso em Pedro Curi, Talitha Ferraz, Claudia Belém, Gabriel Marinho e Pedro Butcher. O que reconheço neles não é apenas a transmissão de conhecimento, mas uma compreensão de que formar profissionais também é uma maneira de ampliar o próprio campo de atuação do cinema.
Mas a formação institucional nunca foi a única responsável por essa transformação. Enquanto universidades e escolas ampliavam seus espaços, outra estrutura de aprendizado crescia em paralelo, em um ambiente que as gerações mais novas passaram a frequentar desde muito cedo: a internet. A relação com o cinema começou a ser mediada também por pessoas que não estavam necessariamente falando a partir de uma universidade, de um jornal ou de uma instituição cultural. Criadores passaram a produzir análises, críticas, entrevistas, vídeos de história do cinema e discussões sobre filmes para audiências próprias. Isso criou uma camada intermediária entre o espectador e a formação formal. Lully é uma referência importante nesse processo. Desde 2011, Luisa Clasen produz conteúdo sobre cinema na internet. Formada em Cinema e Vídeo pela UNESPAR, também passou pela New York Film Academy e pela Academia Internacional de Cinema e TV. Seu trabalho acumulou centenas de vídeos e posteriormente se desdobrou em projetos como o podcast Laboratório de Cinema, criado justamente com a proposta de analisar e compreender melhor os filmes. Carol Moreira construiu uma trajetória semelhante no sentido de transformar o interesse por cinema e televisão em uma produção contínua para uma audiência digital. Rafa Dias representa outra dimensão desse fenômeno. Formado em televisão e cinema pelo George Brown College, no Canadá, ele passou por televisão antes de criar na internet o “Programa de um Cara Só”. A experiência posteriormente levou à criação da Dia Estúdio e, mais tarde, da DiaTV. São trajetórias distintas, e não faria sentido colocá-las dentro de uma mesma fórmula. O que elas têm em comum é algo mais simples: demonstraram, para quem estava acompanhando de fora, que havia trabalho possível naquele território. Não apenas trabalhar fazendo filmes, mas trabalhar falando sobre cinema, produzindo conteúdo, entrevistando pessoas, criando comunidades e desenvolvendo novos formatos.
Esse aspecto é particularmente relevante quando pensamos em quem está chegando ao mercado agora. Existe uma tendência de tratar as novas gerações apenas a partir de seus hábitos de consumo, como se a presença do streaming ou das redes sociais tivesse criado uma relação necessariamente mais distante com a sala de cinema. Os dados recentes são mais interessantes do que essa conclusão. Nos Estados Unidos, o relatório de 2025 da Cinema United apontou que a frequência da Geração Z aos cinemas cresceu 25% em relação ao ano anterior. A média passou de 4,9 para 6,1 idas anuais, enquanto 41% dos espectadores da Geração Z foram ao cinema seis vezes ou mais no ano, contra 31% em 2024. É importante não transformar esse número em uma afirmação sobre todo o público jovem ou transportá-lo automaticamente para o Brasil. O próprio debate internacional sobre o comportamento dessa faixa etária mostra que pesquisas diferentes podem produzir retratos distintos dependendo da amostra e da metodologia. Uma análise recente do The Atlantic, por exemplo, chama atenção para a diferença entre pesquisas realizadas com frequentadores de cinema e dados mais amplos sobre a frequência dos jovens adultos às salas. O ponto, portanto, não é dizer que uma geração inteira voltou ao cinema ou que passou a frequentá-lo mais do que todas as anteriores. É reconhecer que sua relação com o audiovisual acontece em um ambiente muito mais amplo, no qual a descoberta de um filme pode começar em uma rede social, passar por um vídeo de análise, continuar em uma conversa online e terminar dentro de uma sala. Para quem entra profissionalmente nesse setor, essa experiência de circulação entre diferentes telas também produz repertório sobre o próprio funcionamento do audiovisual.
Isso muda a forma como penso a minha função como curador. Curar uma programação de cinema não é apenas decidir quais assuntos são importantes para o mercado. É também pensar em como esses assuntos podem ser apresentados para pessoas que chegam à conversa a partir de lugares diferentes. Quando penso em um painel, existe uma pergunta anterior ao convite de qualquer participante: por que alguém que está chegando agora ao mercado deveria querer ouvir essa conversa? A resposta não pode ser simplesmente porque aquele profissional é importante. A relevância de um nome para quem já está dentro da indústria não garante, por si só, que sua trajetória ou seu conhecimento façam sentido para quem ainda está tentando encontrar seu lugar. Isso muda a maneira como penso a curadoria. Um bom painel precisa produzir informação, mas também precisa produzir reconhecimento. Precisa fazer alguém olhar para uma função que nunca havia considerado e perceber que existe ali uma possibilidade de carreira. Precisa aproximar assuntos que, dentro do mercado, muitas vezes são tratados como segmentos separados, mas que para quem está começando fazem parte de uma mesma pergunta: como funciona essa indústria e onde eu posso atuar dentro dela? Quando construo uma programação para a EXPOCINE, esse raciocínio está presente. Não basta colocar no palco pessoas relevantes. É preciso construir conversas que tenham alguma utilidade para quem está chegando, para quem está estudando, para quem está mudando de área e também para quem já trabalha no setor, mas precisa compreender para onde ele está indo. O desafio da curadoria, portanto, não é apenas reunir especialistas. É construir uma ponte entre o conhecimento que a indústria possui e as perguntas de quem ainda não conhece completamente essa indústria.
É a partir dessa perspectiva que nasceu o painel “Eu Te Fiz Escolher Cinema”, que criei para a EXPOCINE, com Lully na mediação. O título parte de uma provocação, mas a questão é bastante objetiva: quem são as pessoas que nos fizeram perceber que o cinema poderia ser uma profissão? A resposta pode estar em um professor, em um profissional que abriu uma porta, em um colega, em um filme, em um festival ou em um criador que apareceu na tela de um computador quando ainda não sabíamos exatamente o que queríamos fazer. Colocar Lully nessa conversa tem um significado especial porque ela representa justamente uma dessas formas de referência que surgiram fora dos caminhos tradicionais de formação e que passaram a fazer parte da construção de repertório de muita gente. Mas o painel não foi pensado como uma homenagem individual. Ele parte de uma experiência pessoal para discutir um fenômeno maior. Se criadores de conteúdo ajudaram a tornar o audiovisual mais próximo, compreensível e profissionalmente imaginável para quem estava do lado de fora, faz sentido perguntar o que essas referências produziram em uma geração que chegou ao mercado por caminhos diferentes. E faz sentido também colocar essas vozes em contato com profissionais que atuam diretamente na indústria.
Para mim, essa é uma das funções mais importantes de um painel profissional. Um evento de mercado também pode apresentar uma profissão que alguém ainda não conhecia, explicar uma área de atuação, colocar um estudante em contato com um profissional ou simplesmente ajudar uma pessoa a formular uma pergunta que ainda não sabia fazer. Não é possível medir imediatamente esse tipo de impacto. Também não acho que toda conversa precise carregar a responsabilidade de transformar uma trajetória profissional. Mas existe valor em colocar referências no caminho de quem está chegando. Uma pessoa que participa de uma discussão sobre distribuição pode descobrir que existe uma carreira ali. Alguém que acompanha uma conversa sobre exibição pode perceber que o cinema não termina na produção. Quem chega interessado em filmes pode descobrir áreas como programação, pesquisa, tecnologia, acessibilidade, marketing, preservação ou desenvolvimento de audiência. O mercado se torna mais compreensível quando suas diferentes etapas deixam de aparecer como compartimentos isolados. E esse conhecimento pode ser especialmente importante em um momento em que a própria dimensão da atividade cinematográfica brasileira é expressiva. Em 2025, o país registrou 115.726.450 espectadores, 871 cinemas e 3.596 salas. Foram 81 salas inauguradas e 44 fechadas ao longo do ano. Esses números não eliminam os problemas estruturais do setor e tampouco significam que exista trabalho suficiente para todos que desejam entrar. Eles ajudam, porém, a dimensionar uma cadeia que exige profissionais em muitas áreas diferentes. A indústria não é apenas aquilo que aparece nos créditos de um filme. Existe uma estrutura de produção, distribuição, exibição e relacionamento com o público que precisa de profissionais especializados.
Talvez seja justamente essa mudança de escala que ajude a explicar por que a escolha pelo cinema pode ser diferente para quem está entrando agora. O cinema não deixou de ser uma profissão difícil. Continua sendo um setor competitivo, sujeito a ciclos econômicos, concentração de oportunidades e diferenças importantes de acesso. O que mudou é a quantidade de instrumentos disponíveis para que alguém descubra essa profissão antes de precisar depender do acaso. Existem cursos, professores, festivais, oficinas, programas de formação, criadores digitais, comunidades, eventos profissionais e uma quantidade muito maior de informação disponível. O próprio mapeamento realizado pelo Ministério da Cultura mostra que a formação audiovisual federal já está sendo analisada em relação a diferentes elos da cadeia produtiva, incluindo produção, pós produção, acessibilidade, preservação, eventos, relação com empresas e instituições e outras dimensões da atividade. Isso não significa que o caminho esteja pronto. Significa que ele está mais visível. E visibilidade também é uma forma de acesso.
É nesse espaço que entendo o meu trabalho como curador. Não como alguém que determina quais serão as próximas vozes do cinema, mas como alguém que ajuda a colocá-las em contato. Se professores e profissionais fizeram parte das referências que tornaram o cinema uma possibilidade para mim, e se criadores como Lully, Rafa Dias e Carol Moreira demonstraram que era possível construir uma relação profissional com o audiovisual a partir de novas formas de comunicação, existe uma continuidade natural quando tento criar conversas que possam cumprir função semelhante para quem está chegando. “Eu Te Fiz Escolher Cinema” nasce dessa consciência. É uma conversa sobre referências, mas também sobre responsabilidade. O título pergunta quem nos fez escolher, mas a curadoria me leva a uma pergunta seguinte: que referências estamos colocando diante de quem ainda está escolhendo? Não acredito que exista uma resposta única. Cada pessoa chega ao cinema por um caminho diferente, e é justamente essa diversidade de trajetórias que torna o mercado mais amplo. O que podemos fazer é garantir que esses caminhos sejam um pouco mais visíveis do que foram para quem veio antes. Agradeço aos professores e profissionais que fizeram parte da minha formação e que me ajudaram a compreender o cinema para além da tela. E, ao pensar na programação que construo hoje, tento devolver parte desse aprendizado na forma que está ao meu alcance: criando espaços para que conhecimento, experiência e novas perguntas possam se encontrar. Para quem ainda está descobrindo se o cinema pode ser uma profissão, talvez essa seja uma das contribuições mais concretas que podemos oferecer. Não uma promessa de caminho fácil, mas a possibilidade de enxergar que o caminho existe.
Os temas apresentados neste artigo fazem parte das discussões que movimentam o mercado audiovisual e estarão presentes, como subtemas, na programação de painéis, palestras e debates da EXPOCINE 2026. Entre os dias 29 de setembro e 2 de outubro, em São Paulo, os principais profissionais da produção, distribuição, exibição e demais segmentos da indústria se reúnem para discutir tendências, desafios e oportunidades que impactam o futuro do cinema. Garanta sua credencial FORUM e acompanhe esses debates de perto em expocine.com.br
Gabriel Neves
Conteúdo e curadoria da EXPOCINE