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Quantas pessoas o cinema está deixando de atender?

Por Marcella Fazzio A indústria do cinema aprendeu a medir praticamente tudo. Acompanhamos bilheterias em tempo real, ocupação de salas, desempenho por praça, perfil demográfico, market share, concorrência com streaming e hábitos de consumo. Cada decisão busca responder à mesma pergunta, onde estão as oportunidades de crescimento? Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas […]

Escrito por: marcelolima

Por Marcella Fazzio

A indústria do cinema aprendeu a medir praticamente tudo.

Acompanhamos bilheterias em tempo real, ocupação de salas, desempenho por praça, perfil demográfico, market share, concorrência com streaming e hábitos de consumo. Cada decisão busca responder à mesma pergunta, onde estão as oportunidades de crescimento?

Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões do mercado:

Quantas pessoas o cinema está deixando de atender?

Não estamos falando de um nicho, nem de uma pauta exclusivamente social, estamos falando de mercado.

Segundo dados do IBGE, o Brasil possui cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência. É uma população maior do que a de muitos países e que participa ativamente da economia, do consumo e da vida cultural. Ainda assim, quando pensamos em audiência para o cinema, esse público quase nunca aparece nas análises estratégicas.

Talvez porque a acessibilidade tenha sido historicamente tratada como uma obrigação regulatória, um custo necessário, um item de conformidade. Mas e se estivermos olhando para o tema pelo ângulo errado?

Nos últimos anos, mercados mais maduros passaram a discutir um conceito conhecido como Disability Economy ou Purple Economy, a força econômica representada pelas pessoas com deficiência e por toda a rede de consumo que as acompanha. Estudos internacionais estimam que esse mercado movimenta entre US$ 13 trilhões e US$ 18 trilhões globalmente quando considerados familiares, amigos e redes de apoio que influenciam ou compartilham decisões de consumo.

O dado mais interessante, porém, não está no volume financeiro, está no comportamento de consumo. Pessoas com deficiência raramente consomem sozinhas.

Quando uma pessoa vai ao cinema, muitas vezes ela está acompanhada por familiares, parceiros, amigos, rede de apoio. Isso significa que a experiência acessível não impacta apenas um consumidor. Ela influencia a decisão de consumo de um grupo inteiro.

Nessa realidade, a acessibilidade deixa de ser uma iniciativa voltada para uma parcela específica da população e passa a ser uma estratégia para ampliar a audiência.

O exibidor sabe que a rentabilidade de uma visita não pode ser medida apenas pelo ticket de entrada. Uma cadeira ocupada representa a possibilidade de consumo em diversas frentes do negócio. E uma experiência positiva aumenta as chances de retorno daquele público e de todo o seu grupo de convivência.

Durante décadas, pessoas com deficiência enfrentam barreiras para acessar salas de cinema, conteúdos audiovisuais e experiências culturais em igualdade de condições. O resultado foi a formação de uma demanda reprimida que ainda está longe de ser plenamente atendida.

Ao contrário do que muitos imaginam, não estamos diante de um público novo, estamos diante de um público historicamente excluído do mercado. Essa diferença é fundamental.

A pergunta deixa de ser “existe demanda?” e passa a ser “quanto dessa demanda ainda não estamos capturando?”

O streaming por exemplo  já vem timidamente fazendo esse movimento, legendas, audiodescrição e recursos de acessibilidade passam a fazer parte da estratégia de plataformas que disputam atenção em escala global. Só aqui na MAV, em 12 meses, foram produzidos mais de 30 títulos com ASL, Língua Americana de Sinais para algumas plataformas e esse número deve crescer cada vez mais. Não porque sejam organizações filantrópicas, mas porque compreenderam uma lógica simples, quanto mais pessoas conseguem consumir um conteúdo, maior é o potencial de audiência.

No cinema, essa lógica não é diferente, a  questão é que ainda discutimos acessibilidade principalmente pelo prisma da obrigação. Talvez seja hora de começar a discuti-la também pelo prisma da oportunidade. 

E é justamente essa mudança de perspectiva que começa a ganhar espaço em alguns dos principais encontros do setor.

Na Expocine, por exemplo, a acessibilidade vem evoluindo a cada edição. Mais do que disponibilizar recursos, o evento tem buscado incorporá-los ao planejamento da experiência dos participantes, estruturando operações que envolvem legendagem ao vivo, tradução, interpretação de Libras, integração técnica e planejamento entre diferentes equipes para que mais pessoas possam acompanhar os conteúdos em igualdade de condições.

Esse movimento é importante porque envia uma mensagem clara ao mercado, acessibilidade não deve ser entendida como um diferencial, ela deve fazer parte da qualidade da experiência.

Assim como hoje esperamos boa infraestrutura, excelente projeção, conectividade e conteúdos relevantes em um grande evento do audiovisual, esperamos que a acessibilidade passe a ser considerada um requisito natural para que mais profissionais possam participar, aprender e contribuir para o desenvolvimento do setor.

E talvez a pergunta mais importante para o futuro do setor em relação a acessibilidade, não seja quanto custa tornar uma experiência acessível, talvez a pergunta seja, quanto custa continuar deixando milhões de consumidores do lado de fora?

Esse será um dos temas discutidos pela MAV durante a Expocine, a partir de uma perspectiva ainda pouco explorada no mercado audiovisual brasileiro: a economia da acessibilidade e seu potencial para impulsionar novas audiências para o cinema.

Os temas apresentados neste artigo fazem parte das discussões que movimentam o mercado audiovisual e estarão presentes, como subtemas, na programação de painéis, palestras e debates da EXPOCINE 2026. Entre os dias 29 de setembro e 2 de outubro, em São Paulo, os principais profissionais da produção, distribuição, exibição e demais segmentos da indústria se reúnem para discutir tendências, desafios e oportunidades que impactam o futuro do cinema. Garanta sua credencial FORUM e acompanhe esses debates de perto em expocine.com.br 

marcelolima Escrito por: marcelolima